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Afinal, o que posso comer?

Diário do Nordeste, 11/04/2013 às 09:29

Restringir determinados componentes alimentares é um dos critérios fundamentais para seguir qualquer dieta. Porém, em alguns casos, a limitação é inevitável devido a reações orgânicas desagradáveis. É o que ocorre com aqueles que têm algum tipo de alergia ou intolerância alimentar, geralmente diagnosticados nos primeiros anos de vida. Por esse motivo, os pais precisam ficar alertas aos principais sintomas no intuito de fornecer às crianças uma dieta adequada, sem prejuízos nutricionais. 
 
Acredita-se que cerca de 6% das crianças menores de três anos apresentam algum tipo de sensibilidade alimentar, principalmente em relação ao leite de vaca e ao glúten. 
 
Leite e derivados
 
A sensibilidade ao leite é a reação adversa alimentar mais recorrente na infância, esclarece Christiane Araújo, especialista em Gastroenterologia Pediátrica e membro do Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). 
 
Tal condição é proveniente de dois fatores. O primeiro se refere à deficiência de lactase no organismo, enzima produzida no intestino delgado responsável por digerir a lactose, carboidrato presente no leite. A deficiência é crônica, quando o indivíduo possui predisposição genética que compromete o complexo de enzimas, ou transitória, no caso de infecção viral ou bacteriana. 
 
Nas duas situações, insistir na ingestão de leite provoca diarreia, distensão abdominal (aumento no volume do abdome, resultado do acúmulo de gases ou líquidos no intestino), assadura perianal, flatulência e perda de peso por falta de absorção de nutrientes. Porém, é natural haver uma diminuição da produção de lactase ao longo da vida, tornando crianças e adultos intolerantes a dietas com alto teor de lactose. 
 
Outro fator diz respeito à Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV), resultado de uma reação adversa imunológica decorrente do não reconhecimento do organismo da criança a uma ou mais proteínas presentes no alimento. 
 
O principal risco provém da introdução precoce de alimentos que contenham a proteína do leite de vaca na dieta dos bebês, já que o intestino ainda não está suficientemente maturado. “Se a introdução ocorrer em indivíduos com histórico familiar de alergias, esse risco será ainda maior”. 
 
Os sintomas mais comuns são diarreia, prisão de ventre, refluxo, vômitos, vermelhidão na pele e perda de peso. Além disso, a APLV pode promover lesões no intestino delgado, diminuindo a quantidade de lactase e instaurando uma intolerância à lactose. 
 
“A APLV é diferente de intolerância à lactose, apesar dessa última estar presente como consequência da alergia ao leite de vaca. Ou seja, nem todos aqueles que têm intolerância à lactose são portadores de alergia”, diz. Estima-se que aproximadamente um em cada 20 bebês tenha APLV. 
 
Doença celíaca
 
Uma outra reação alimentar é a doença celíaca, enteropatia (doença do intestino) que acomete indivíduos geneticamente suscetíveis. É causada pela sensibilidade permanente ao glúten, proteína presente em alimentos derivados de trigo, aveia, cevada e centeio. Entretanto, apesar da predisposição genética, é preciso que ocorra um primeiro contato com o glúten para desencadear a doença. “Dessa forma, acontece uma reação de autoimunidade que ocasiona lesões na mucosa intestinal, provocando má absorção de nutrientes”, explica a especialista em gastroenterologia pediátrica. 
 
A introdução de alimentos que contenham glúten antes dos quatro meses de idade em indivíduos geneticamente predispostos é um considerável fator de risco para o surgimento da doença. “Nesses casos, continuar consumindo alimentos com glúten resulta em diarreia, perda de peso e, em longo prazo, osteoporose, anemia, retardo do desenvolvimento puberal, baixa estatura e diabetes, além de maior predisposição para alguns tipos câncer”, explica. 
 
No grupo das alergias, é também frequente os casos de aversão a outros alimentos, entre eles, ovo, soja, amendoim, castanha e peixe. Segundo a Dra. Christiane Araújo, há manifestações de alergias alimentares que envolvem vários mecanismos e que podem acarretar reações de pele, respiratórias e até casos graves de anafilaxia, hipersensibilidade. 
 
Daniara Pessoa, 30 anos, é especialista em Ciência de Alimentos e mãe de Ytrio, de 4 anos, portador de alergia alimentar. Ela conta que descobriu a APLV no filho, com pouco tempo que o pequeno havia completado dois meses de vida. "A mãe que amamenta precisa controlar sua dieta. Eu tive que retirar todos os derivados do leite da minha alimentação", comenta. 
 
Daniara Pessoa, especialista em Ciência de Alimentos, tem preocupação dobrada com a dieta do filho Ytrio, alérgico à proteína do leite de vaca.
 
Dieta em família
 
Toda a família precisou se adaptar à restrição alimentar do bebê, além de adotar alguns cuidados como, por exemplo, estar atento à limpeza dos utensílios domésticos, já que, mesmo limpos, podem conter fragmentos de substâncias nocivas à saúde da criança alérgica.
 
Sandra Vieira dos Santos, 33, é mãe de Pedro Henrique, de 2 anos, alérgico às proteínas do leite e do ovo. O diagnóstico foi feito com apenas um mês de vida. 
 
Devido ao surgimento de uma icterícia associada à amamentação, a alimentação do bebê precisou ser complementada com a inclusão de leite de vaca. Tal mudança resultou no aparecimento dos primeiros sintomas, quando a APLV foi detectada. "Ele começou a ficar com a barriga inchada, a ter muita cólica e a não dormir direito. Por meio de exames de fezes, foi possível comprovar que meu filho tinha essa alergia", relembra. Já a alergia ao ovo foi identificada por meio de um exame de sangue que indica diferentes tipos de alergia. 
 
Sandra diz que, a princípio, não havia muita informação acerca da alergia alimentar do filho e decidiu fazer uma dieta bastante restritiva pois, geralmente, quem tem alergia a leite pode reagir a outras proteínas. "Fiz uma dieta isenta de leite, carne, soja e trigo. Aos poucos, fui introduzindo outros componentes até descobrir que a alergia dele era ao leite de vaca e ao ovo". Hoje, todos os integrantes da família fazem a dieta restritiva. "Foi difícil a família se adaptar, pois os produtos disponíveis no mercado não costumam rotular a presença de componentes do leite", conta. 
 
A médica Christiane Araújo alerta que é necessário fazer uma substituição adequada em dietas que restrinjam um grupo de alimentos a longo período para suprir o balanceamento nutricional dos macronutrientes (carboidratos, proteínas e gorduras) e dos micronutrientes (vitaminas e minerais). Caso não seja feito um planejamento nutricional, o organismo torna-se deficiente em zinco, cálcio e vitaminas, o que leva ao desencadeamento de uma série de complicações, como anemia. 
 
Apoio da escola
 
E quando os filhos estão na escola, como fazer esse controle? Nesses casos, contar com o apoio da instituição é fundamental. Daniara Pessoa tomou todos os cuidados necessários para alertar a escola quanto às limitações alimentares de seu filho. "Tudo o que ele come tem que vir de casa; não pode comer nada feito na escola. Esclarecemos às professoras que ele só pode comer o que está dentro da lancheira", enfatiza. 
 
Sandra Araújo diz ter a escola como parceira. "As professoras sempre ficam atentas na hora do lanche. Puseram até uma mesa a mais na sala para ele poder lanchar junto com outro colega, também alérgico. O Pedro Henrique nunca se sentiu excluído pelo fato de ter que se alimentar de forma mais direcionada, pois eu me esforço ao máximo para que ele não se sinta assim", conta. 
 
Cuidados 
 
A conscientização dos pais deve ser preventiva, tendo em vista que o estímulo ao aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida é um fator protetor. “Uma vez instalado um quadro de intolerância ou alergia alimentar, os pais precisam estar cientes de tudo o que deve ser excluído da dieta da criança, quais os riscos da exposição voluntária ou acidental a esses alimentos e como evitar o consumo dos mesmos. A leitura dos rótulos de alimentos industrializados, bulas de remédios e cosméticos deve ser sistemática. Quanto mais informados os pais, melhor será a evolução dessa criança”, encerra Christiane Araújo. 
 
 
FIQUE POR DENTRO
 
Apaace auxilia pais na troca de experiências 
 
Pais e mães se uniram com o intuito de difundir e facilitar o conhecimento sobre alergias alimentares. Assim, surgiu a Associação dos Portadores de Alergia Alimentar do Ceará (Apaace). "O grupo orienta sobre a dieta e os locais de produtos confiáveis para o consumo. Trocamos experiências a respeito de médicos, exames e tratamentos", diz Daniara.
 
Para Sandra, outro objetivo é mobilizar empresas alimentícias para que os produtos contenham informações dos ingredientes. "São poucas as que rotulam. Muitas vezes, não querem se responsabilizar, apesar de nos esforçarmos para explicar o distúrbio e como isso pode prejudicar a vida da criança". A maior dificuldade é que alguns produtos ditos "limpos" podem compartilhar o maquinário dos que levam leite na composição, contaminando o alimento. A Apaace mantém um grupo no Facebook chamado "Meu Filho tem Alergia Alimentar”.
 
Fonte : Diário do Nordeste


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